CES 2011: Internet TV no centro da batalha do entretenimento


A CES 2011 assiste à entrada em força da Internet nos televisores. Também os tablets marcam o evento, com o iPad a conhecer mais de 100 rivais. Duas siglas que vão ecoar em Las Vegas são 3D e 4G, com as três dimensões a dispensarem os óculos e as redes de 4.ª geração a transportarem vídeo HD.


A batalha pela conquista das salas de estar marca a edição deste ano da Consumer Electronics Show (CES), com o brilho de Las Vegas a servir de cenário à apresentação de novos serviços de Internet por parte das fabricantes de televisores, num claro desafio à tentativa de gigantes do sector como a Google e a Apple para dominarem o entretenimento doméstico.
Neste sentido, Samsung, LG e Cisco Systems, fornecedora de set-top boxes, começaram ontem a levantar o pano sobre novas aplicações, sinalizando que não vão oferecer de mão beijada a liderança à Google, Apple ou outras empresas que pretendem aliciar os consumidores a verem programação online a partir dos aparelhos de televisão. “Todas estas empresas estão a começar a aventurar-se por si próprias, porque podem ser mais céleres e originais por não estarem amarradas a parceiros de desenvolvimento”, sublinha a propósito Richard Shim, analista da DisplaySearch, citado pela agência Bloomberg.
Confirmando esta tendência, mais de metade das televisões vendidas em 2014 vão oferecer serviços Web, de acordo com as projecções da Display Search. Afinal, as fabricantes de produtos electrónicos consideram os televisores, que apresentam preços mais elevados do que a maioria dos outros aparelhos e são o ponto central das salas de muitos consumidores, a chave para impulsionarem as suas margens de lucro e fomentarem a lealdade às suas marcas. Controlar a primeira imagem que os telespectadores vêem é parte deste objectivo.
A sul-coreana Samsung começou a aliciar os programadores no ano passado tendo em vista a criação de aplicações para a sua loja online Samsung Apps, que está disponível a partir dos televisores, leitores de Blu-ray, computadores pessoais, smartphones e tablets Galaxy Tab que produz. Agora, nos corredores do Centro de Convenções da meca do jogo dos EUA, a também sul-coreana LG Electronics e a japonesa Toshiba, entre outros players, apostam tudo no anúncio de portais de venda de aplicações semelhantes.
Por seu lado, a Vizio, produtora de televisores californiana, exibe na CES um computador tablet e um smartphone conectados à sua loja de aplicações. “À medida que mais pessoas adoptam as televisões com ligação à Internet, acreditamos que também procuram novas funcionalidades”, declara Tim Alessi, director de Desenvolvimento de Produto da LG.


A lição da Apple
A omnipresente Apple vendeu milhões de unidades dos seus produtos estrela iPad e iPhone alicerçada na oferta de centenas de milhares de aplicações aos seus clientes através de uma loja online que lhes permite personalizar os produtos que adquiriram. No mesmo sentido, a vizinha Google tem-se esforçado para conquistar as fabricantes para a sua plataforma Google TV, destinada a aparelhos com capacidade de exibição de conteúdos Web.
Recorde-se que a operadora do motor de busca mais popular a nível mundial introduziu em Maio último um sistema operativo personalizado para a Internet TV que funciona em harmonia com o browser Google Chrome. A Google TV, à semelhança de outras plataformas que assumem o papel principal no palco da CES, melhora a experiência dos espectadores por via da integração de serviços online como os filmes da Netflix, facilitando a pesquisa das listas de canais disponíveis e permitindo aos consumidores terem acesso às recomendações de outras pessoas. Embora a Google tenha atraído como parceiros de produto iniciais nomes sonantes da indústria como a Sony e a Logitech, foi-lhe bloqueada a possibilidade de oferecer os programas do site tv.com, da CBS, das páginas das principais emissoras norte-americanas e do Hulu.com, site detido por NBC, News Corporation e Walt Disney. Afinal, é de uma batalha pelo domínio deste mercado emergente que se trata.
“Existem provas concludentes de que os consumidores querem o streaming à la carte e on-demand de todos os tipos de conteúdos”, reforça Ryan McIntyre, director-geral da empresa de capital de risco Foundry Group. “No entanto, há ainda um longo caminho a percorrer antes de nos podermos sentar à frente das nossas televisões ou computadores e ter acesso a todo o universo de conteúdos num único local”, alerta McIntyre, em declarações reproduzidas pela Bloomberg.
Assumindo a responsabilidade de responder a este desafio, a Cisco, maior fabricante mundial de equipamento para redes informáticas, definiu como objectivo ultrapassar este obstáculo. Assim, numa altura em que empresas como a Xfinity, Hulu e Netflix esbatem as fronteiras entre a televisão paga, programas online e conteúdos on-demand, a Cisco está a tentar capitalizar a tendência oferecendo aos fornecedores de serviços a capacidade de disponibilizar vídeo a qualquer tipo de aparelho ligado à Internet.


Browsers migram para a TV?
As fabricantes de televisores estão a trabalhar em browsers próprios, embora a maioria dos consumidores não os deva utilizar, de acordo com Tim Alessi. “Não estamos certos de que as pessoas queiram mesmo transformar as suas televisões em verdadeiros computadores como no caso da Google TV”, afirma.
A corrida à criação de novos produtos visível em Las Vegas surge num momento em que os serviços de banda larga, tanto móveis como fixos, estão a ser melhorados para permitirem aos utilizadores acederem aos conteúdos de forma mais rápida. No caso dos EUA, cerca de 64% das famílias têm em suas casas serviços de Internet de banda larga, segundo as estatísticas do Departamento do Comércio.


CES ao ritmo do 4G
Neste âmbito, Verizon Wireless, Sprint e outras operadoras móveis norte-americanas estão a expandir as respectivas redes de quarta geração (4G), que se espera que sejam 10 vezes mais rápidas do que os serviços actuais. Todas elas estão a apresentar novos smartphones em Las Vegas.
Estas redes, que recorrem às tecnologias LTE e WiMAX, são suficientemente rápidas para os consumidores verem vídeos em alta definição. É expectável que substituam a televisão paga convencional, com os utilizadores a acederem ao entretenimento a partir das ondas de rádio muitos anos depois.
Na arena dos smartphones, apesar da apresentação de inúmeros terminais no certame, as novidades não são de monta, o que Lance Ulanoff explica no site pcmag.com pelo facto de faltar apenas um mês para a abertura das portas do congresso mundial de tecnologia móvel Mobile World Congress.


Internet chega à cozinha
A título de curiosidade, refira-se que também as fabricantes de electrodomésticos vão ligar os seus produtos à Internet. Lance Ulanoff destaca as presenças da Kenmore e da Whirlpool e de electrodomésticos com aplicações que podem, por exemplo, enviar mensagens escritas para os telemóveis quando a roupa está lavada ou ligar um microondas antes de o utilizador chegar a casa.
Finalmente, no que concerne à informática mais pura, os holofotes vão estar dirigidos para o stand da gigante Intel, que demonstra a sua nova geração de microprocessadores Sandy Bridge, também orientada para um melhor desempenho no processamento de conteúdos de entretenimento e de vídeo em alta definição (HD).


iPad encontra pretendentes ao trono dos tablets
A CES 2011 é o evento dos tablets. Cerca de um ano depois de a Apple ter renovado o interesse neste segmento com a apresentação do iPad, apesar da sua entrada bem mais recente no mercado português, os principais players da indústria informática preparam a resposta, sob a batuta da Microsoft e do Android.
Desta forma, a Microsoft, maior produtora mundial de software, vai anunciar uma versão integral do sistema operativo Windows que corre sobre a plataforma da ARM Holdings. O alvo, claro está, são os tablets. A aliança com a ARM constitui a estratégia definida pela companhia liderada pelo CEO Steve Ballmer para desafiar a Apple, que conquistou a maior quota do mercado dos tablets com o seu iPad, um aparelho com ecrã touch-screen apresentado em Abril de 2010 e que se dirige à visualização de vídeo, música e livros electrónicos, sem descurar as aplicações de produtividade.
A nova versão do Windows foi adaptada para os dispositivos alimentados por baterias, como os tablets e os smartphones, de acordo com fontes contactadas pela agência Bloomberg. Os chips baseados na tecnologia da britânica ARM são fabricados por Qualcomm, Texas Instruments e Samsung Electronics.
No entanto, “quando a Microsoft entrar em força neste mercado, já toda a gente terá um iPad”, adverte Keith Goddard, CEO da empresa de investimento Capital Advisors. “O comboio já partiu da estação”, ilustra Goddard, citado pela Bloomberg.


No entanto, as rivais da empresa da maçã não baixam os braços, sendo esperada a apresentação de cerca de 100 tablets até ao próximo domingo, dia 9 de Janeiro, data de encerramento da CES. A maioria dos analistas espera ainda que o sistema operativo Android, da Google, se sagre vencedor do evento. Recorde-se que as fabricantes de computadores têm tentado vender tablets assentes no Windows ao longo da última década, sem sucesso. Antes do iPad, os tablets representavam uma fatia de apenas cerca de 2% do mercado de computadores pessoais. Entretanto, a Apple comercializou 7,46 milhões de unidades até Setembro de 2010.


Acresce que, de acordo com os analistas da Goldman Sachs, a empresa de Steve Jobs pode vender até 37,2 milhões de iPad este ano. Este desempenho sinaliza que a quota dos computadores tablet pode avançar para a fasquia dos 9,2% em 2011, com base nas projecções da IDC.
Para além de ganhar quota, a Apple também redefiniu as expectativas dos utilizadores acerca das tarefas que um tablet deve desempenhar, destaca Michael Gartenberg, especialista do Gartner. Em vez de exigir a utilização de uma caneta enquanto rato, o iPad permite às pessoas navegarem na ponta dos dedos, sintetiza. Gartenberg demonstra um maior optimismo quanto às hipóteses da Microsoft neste segmento de mercado, recordando que, “agora que a Apple abriu o mercado, ninguém quer ficar para trás”.


Microsoft enfrenta Apple…
Ao adaptar o seu sistema operativo dos computadores para os tablets, a Microsoft segue uma abordagem distinta da Apple, que recorreu a um software de smartphone como base para o iPad. Deste modo, a plataforma da Apple permite um início instantâneo, uma duração de bateria mais longa e o acesso às mais de 300 mil aplicações já desenvolvidas para o iPhone.


…e Google
A Microsoft debate-se com a concorrência da Apple desde o advento do computador pessoal. O Windows venceu as batalhas iniciais, relegando os Macintosh para uma franja de menos de 10% do mercado.
No entanto, agora enfrenta também a gigante da Internet Google, responsável pelo sistema operativo para aparelhos móveis Android, que já ultrapassou a Apple em número de dispositivos que correm o software nos EUA. Companhias como a Dell e a Samsung, que utilizam os programas da Microsoft nos seus PC, já apresentaram tablets baseados no Android, numa tentativa de não perderem mais terreno para a Apple.
Neste sentido, quanto mais tempo a Microsoft demorar a introduzir um sistema operativo nos tablets, menos provável é que possa desafiar Apple e Google. Um status quo que a empresa se apresta para alterar em Las Vegas.

3D perde os óculos
A somar aos tablets, outra das principais tendências da CES 2011 consiste no incremento da oferta de produtos capazes de exibirem imagens a três dimensões (3D), desde os televisores às câmaras fotográficas.
Desta forma, apesar de as vendas de televisões 3D terem ficado aquém das expectativas em 2010, as fabricantes apostam em inovações como os óculos universais e mesmo os aparelhos que não exigem a utilização destes acessórios. Em concreto, a Samsung Electronics, maior fabricante mundial, planeia oferecer uma gama de televisores 3D com preços mais acessíveis do que os dos actuais modelos, após os custos elevados terem contribuído para retrair a procura.
A empresa sul-coreana vai incluir a tecnologia num total de sete modelos ao longo deste ano, avançou à agência Bloomberg Lee Kyung Shik, vice-presidente da divisão de media digitais da Samsung. A líder mundial apresenta um total de seis modelos 3D aos 120 mil visitantes esperados na edição deste ano da CES.


Após aferirmos das necessidades dos consumidores através de pesquisas de mercado, descobrimos que existe uma procura muito forte para os televisores 3D”, justificou Lee, reconhecendo que “o preço tem sido um obstáculo” à generalização da tecnologia.


A Samsung junta-se à Toshiba neste esforço para impulsionar as vendas de aparelhos 3D, enfrentando os obstáculos dos preços elevados e da exigência de óculos especiais. A nipónica Toshiba vai divulgar os primeiros ecrãs 3D de grandes dimensões a nível mundial que não implicam a utilização de óculos. Trata-se de protótipos com ecrãs de 56 e 65 polegadas de diagonal.


No rol de projectos da Samsung conta-se ainda um serviço de streaming que vai permitir aos utilizadores assistirem a filmes e programas televisivos em 3D sem terem que fazer o respectivo download. A multinacional sul-coreana vai exibir no seu stand do Centro de Convenções de Las Vegas uns óculos 3D que pesam apenas 28 gramas, cerca de 10 gramas mais leves do que os modelos em comercialização.


Em termos globais, os televisores para visualização de imagens a três dimensões através de óculos específicos vão representar até 20% das vendas de LCD este ano, impulsionados pelos modelos mais acessíveis que podem ser vistos na CES até ao próximo domingo.


Fonte: OJE

Felipe Rodrigues da Silva

Consultor em E-commerce, sócio fundador da ZIO Soluções em Internet, com mais de 15 anos de experiência nas áreas de Internet, TI e Desenvolvimento de Software. E atuou na área de TI, em grandes empresas como Terra Networks, Grupo RBS, Unisinos e outras, hoje atuando como Consultor de E-commerce nos mais diversos segmentos.

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